Quaresma 2021 – Reflexões diárias

Apresentaremos ao longo da Quaresma um caminho de vivência cristã desde o contexto da pandemia na qual nos encontramos. A pobreza se aprofundou nesse tempo de crise global. Nesse sentido, a abordagem se dá desde o número 1 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: “Fim da Pobreza”.

Desde a dimensão da Solidariedade e Missão dos Missionários Claretianos, queremos apresentar este itinerário quaresmal que ressalta duas características fundamentais da Fundação PROCLADE (Promoção Claretiana de Desenvolvimento): o trabalho em rede e a leitura de fé da realidade.

Para isso, apresentaremos ao longo da Quaresma um caminho de vivência cristã desde o contexto da pandemia na qual nos encontramos. A pobreza se aprofundou nesse tempo de crise global. Nesse sentido, a abordagem se dá desde o número 1 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: “Fim da Pobreza”.

Como o Papa Francisco nos apresenta, “só com um olhar cujo horizonte esteja transformado pela caridade, levando-nos a perceber a dignidade do outro, é que os pobres são reconhecidos e apreciados na sua dignidade imensa, respeitados no seu estilo próprio e cultura e, por conseguinte, verdadeiramente integrados na sociedade” (FT, 187).

Os textos partem de diferentes perspectivas, estilos, sonhos e sofrimentos. Dom e responsabilidade são dois pilares que nos movem a cuidar dos pequenos e dos pobres que sofreram e continuam sofrendo as consequências dessa crise sanitária, econômica e social.

O texto é uma tradução e adaptação do material que foi elaborado pelo Grupo Enlázate por la Justicia de Vigo (Espanha) e coordenado e editado pela Fundação PROCLADE, da Espanha.

17 de fevereiro – Quarta-feira de Cinzas

Leitura

20Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores em nome de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio. Em nome de Cristo vos rogamos: reconciliai-vos com Deus!21Aquele que não conheceu o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornássemos justiça de Deus. 1Na qualidade de colaboradores seus, exortamo-vos a que não recebais a graça de Deus em vão.2Pois ele diz: Eu te ouvi no tempo favorável e te ajudei no dia da salvação. Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação. (2Cor 5,20-6,2).

Reflexão
Esta frase de São Paulo marca com clareza este caminho de quarenta dias de preparação à Páscoa iniciado hoje.
Ainda que pareça impossível, continua sendo verdade aqui e agora.
Hoje inauguramos um tempo favorável e de salvação. Não uma penitência sem sentido (ou com um sentido meramente egoísta), mas uma reconciliação sincera que nos abre aos demais em Deus.
Em meio a esta pandemia, também podemos ver a salvação que se faz carne em tantos gestos, em tanto bem, em tantos cuidados que aparecer ao nosso redor. Se sabemos levantar os olhos ou nos retirar à profundidade de nós mesmos e aos demais (como nos aconselha o Evangelho de hoje), poderemos intuir ou perceber estas realidades de salvação. Oxalá façamos isso para que possamos comunicar esta experiência aos demais.

Oração
Bom Pai, faz que eu possa ver além do negativo. Que eu possa rastrear a bondade e aquilo que se salva de tudo e de todos. Que não me deixe levar pelo desânimo, que hoje possa iniciar um caminho salvífico, para mim e para os demais. Que hoje inaugure, contigo, um tempo propício, o dia da salvação.

18 de fevereiro – Quinta-feira

Leitura
22Ele acrescentou: É necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas. É necessário que seja levado à morte e que ressuscite ao terceiro dia.23Em seguida, dirigiu-se a todos: Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.24Porque, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem sacrificar a sua vida por amor de mim, salvá-la-á.25Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder-se a si mesmo e se causa a sua própria ruína? (Lc 9, 22-25).

Reflexão
Neste tempo aprendemos muitas coisas, mas uma das principais, e mais complicadas de entender e viver, é que perdemos e ganhamos. Neste contexto a difícil frase de Jesus se encaixa de modo vital.
Trata-se de perder generosamente para que ganhem outros, inclusive nós mesmos. Perder em liberdades, em comodidades, em abraços e beijos…
Ao contrário do que nos dizem sobre “pensar em nós primeiro”, ou quase somente nós (ou nos mais próximos), foi aberto para nós um mundo incrível de relações. Pessoas que antes ignorávamos, tivemos a oportunidade de perceber que estavam ali para fazer que funcionassem pequenas e grandes coisas. Cuidar e agradecer os outros, sem que vejamos os seus rostos. “Fazer” quase tudo, sem fazer nada ou deixando de fazer.
Perder para ganhar ou ganhar perdendo. Para Deus nada é impossível.

Oração
Pai de misericórdia, faz-nos viver de um modo diferente.
Faz que possamos perder nossa vida nos demais,
para que ganhemos nesse abismo de generosidade
que Tu és em nós.
Tu, perfeita oblação, que fazes tudo para nos ressuscitar,
que nos ressuscita entregando-te.
Que saibamos ganhar perdendo.

19 de fevereiro – Sexta-feira

Leitura
1Clama em alta voz, sem constrangimento; faze soar a tua voz como a corneta. Denuncia a meu povo suas faltas, e à casa de Jacó seus pecados.2Sem dúvida eles me procuram dia após dia, desejam conhecer o comportamento que me agrada, como uma nação que houvesse sempre praticado a justiça, sem abandonar a lei de seu Deus. Informam-se junto a mim sobre as exigências da justiça, desejam a presença de Deus.3De que serve jejuar, se com isso não vos importais? E mortificar-nos, se nisso não prestais atenção? É que no dia de vosso jejum, só cuidais de vossos negócios, e oprimis todos os vossos operários.4Passais vosso jejum em disputas e altercações, ferindo com o punho o pobre. Não é jejuando assim que fareis chegar lá em cima vossa voz.5O jejum que me agrada porventura consiste em o homem mortificar-se por um dia? Curvar a cabeça como um junco, deitar sobre o saco e a cinza? Podeis chamar isso um jejum, um dia agradável ao Senhor?6Sabeis qual é o jejum que eu aprecio? – diz o Senhor Deus: É romper as cadeias injustas, desatar as cordas do jugo, mandar embora livres os oprimidos, e quebrar toda espécie de jugo.7É repartir seu alimento com o esfaimado, dar abrigo aos infelizes sem asilo, vestir os maltrapilhos, em lugar de desviar-se de seu semelhante.8Então tua luz surgirá como a aurora, e tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se; tua justiça caminhará diante de ti, e a glória do Senhor seguirá na tua retaguarda.9Então às tuas invocações, o Senhor responderá. (Is 58,1-9a).

Reflexão
Todos somos portadores de luz. Como João dizia em seu prólogo: “A luz brilhou nas trevas, mas as trevas não a receberam” (Jo 1,5). Somos luz quando fazemos com os outros possam brilhar, sair da escuridão da injustiça ou do que chamamos de fatalidades.
Como nos diz o profeta Isaías: “É romper as cadeias injustas, desatar as cordas do jugo, mandar embora livres os oprimidos, e quebrar toda espécie de jugo.7É repartir seu alimento com o esfomeado, dar abrigo aos infelizes sem asilo, vestir os maltrapilhos, em lugar de desviar-se de seu semelhante”. Tantas vezes fizemos isso, de uma ou outra maneira. E tantas vezes também deixamos de fazer. Luz e trevas de gestos pequenos e simples. Evangelho concreto e cotidiano. Possibilidade de ser luz e iluminar.

Oração
Tu és a Luz e tua luz nos dá a luz.
Brilho nos olhos e na alma,
Suave chama que não deslumbra,
Iluminação viva
que nos dá a luz a cada dia,
que nos recria quando recriamos os demais.
Que nos recria quando nos deixamos iluminar pelos demais.

20 de fevereiro – Sábado

Leitura
Inclinai, Senhor, vossos ouvidos e atendei-me, porque sou pobre e miserável.2Protegei minha alma, pois vos sou fiel; salvai o servidor que em vós confia. Vós sois meu Deus;3tende compaixão de mim, Senhor, pois a vós eu clamo sem cessar.4Consolai o coração de vosso servo, porque é para vós, Senhor, que eu elevo minha alma.5Porquanto vós sois, Senhor, clemente e bom, cheio de misericórdia para quantos vos invocam.6Escutai, Senhor, a minha oração; atendei à minha suplicante voz.7Neste dia de angústia é para vós que eu clamo, porque vós me atendereis.8Não há entre os deuses um que se vos compare, Senhor; não existe obra semelhante à vossa.9Todas as nações que criastes virão adorar-vos, e glorificar o vosso nome, ó Senhor.10Porque vós sois grande e operais maravilhas, só vós sois Deus.11Ensinai-me vosso caminho, Senhor, para que eu ande na vossa verdade. Dirigi meu coração para que eu tema o vosso nome.12De todo o coração eu vos louvarei, ó Senhor, meu Deus, e glorificarei o vosso nome eternamente.13Porque vossa misericórdia foi grande para comigo, arrancastes minha alma das profundezas da região dos mortos.14Ó Deus, os soberbos se levantaram contra mim, uma turba de prepotentes odeia a minha vida, eles que nem vos têm presente antes os olhos.15Mas vós, Senhor, sois um Deus bondoso e compassivo; lento para a ira, cheio de clemência e fidelidade.16Olhai-me e tende piedade de mim, dai ao vosso servo a vossa força, salvai o filho de vossa escrava.17Dai-me uma prova de vosso favor, a fim de que verifiquem meus inimigos, para sua confusão, que sois vós, Senhor, meu sustento e meu consolo. (Sal 85)

Reflexão
Durante este tempo de pandemia, em algum momento, tivemos a sensação de desamparo. Sentir a solidão profunda e a debilidade de não poder fazer quase nada. Não controlar o que está acontecendo ou a quem está acontecendo.
Sentir-nos desamparados, pobres, frágeis, impotentes… produz em nós sensações ruins. Mas também nos abre à necessidade de contar com os demais e, portanto, também com Deus.
Saber que somos necessitados é um raro luxo para estes tempos. Pedir aos demais e a Deus que inclinem o ouvido, que nos escutem, é aprender a viver de outro modo. Deixar de ser o umbigo para tornar-se mão aberta que pede e que dá. Pedir: “Dá-me tua mão e vem comigo”.

Oração
Livra meus olhos da morte concede-lhes a luz que é o seu destino.
Eu, como cego do caminho, peço o milagre de te ver.
Torna as minhas mãos uma ferramenta construtiva;
Cura essa febre possessiva para abri-la ao bem dos meus irmãos.
Que eu compreenda, meu Senhor, quem se queixa e retrocede;
Que o coração não permaneça frio.
Guarda minha fé do inimigo (e de tantos que dizem que estás morto…!)
Tu que conheces o deserto, dá-me tua mão e vem comigo.

21 de fevereiro – Domingo

Leitura
8Disse também Deus a Noé e a seus filhos:9“Vou fazer uma aliança convosco e com vossa posteridade,10assim como com todos os seres vivos que estão convosco: as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens que estão convosco, desde todos aqueles que saíram da arca até todo animal da terra.11Faço esta aliança convosco: nenhuma criatura será destruída pelas águas do dilúvio, e não haverá mais dilúvio para devastar a terra.”12Deus disse: “Eis o sinal da aliança que eu faço convosco e com todos os seres vivos que vos cercam, por todas as gerações futuras:13Ponho o meu arco nas nuvens, para que ele seja o sinal da aliança entre mim e a terra.14Quando eu tiver coberto o céu de nuvens por cima da terra, o meu arco aparecerá nas nuvens,15e me lembrarei da aliança que fiz convosco e com todo ser vivo de toda espécie, e as águas não causarão mais dilúvio que extermine toda criatura. (Gn 9,8-15)

Reflexão
No primeiro domingo da Quaresma nos encontramos com este pacto de Deus com a terra depois do dilúvio. Uma bela maneira de narrar que Deus não é um deus de prêmios ou castigos, mas um Deus que coloca cores no céu para nos lembrar a beleza da paz (pombo com o ramo de oliveira).🕊
É como o arco-íris, feito pelas mãos das crianças, que vimos neste momento de isolamento colado em muitas janelas. A lembrança esperançada de que o negativo não vai durar para sempre. Um sinal muito sutil, efêmero, que pode passar despercebido se nosso olhar se dirige apenas para baixo. Não é magia, é a imagem de um Deus misericordioso que, sobretudo, acompanha os mais frágeis. Deus em cores.

Oração
Deus, que nos acompanhas pelos vales escuros, que nos desenha esperança nos céus.
Que arrancas sorrisos admirados no meio de cores dadas.
Deus do Nazareno que continua passando, fazendo o bem, visitai-nos em nossas desesperanças, em nossas escuridões, e que a beleza da paleta de cores que é o teu amor de arco-íris nos plenifique. Agora e para sempre. Amém.

22 de fevereiro – Segunda-feira

Leitura
31Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso.32Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos.33Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.34Então o Rei dirá aos que estão à direita: – Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo,35porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes;36nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim.37Perguntar-lhe-ão os justos: – Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber?38Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos?39Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?40Responderá o Rei: – Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.41Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: – Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos.42Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber;43era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes.44Também estes lhe perguntarão: – Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos?45E ele responderá: – Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.46E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna. (Mt 25,31-46)

Reflexão
Esta frase pertence à descrição que Mateus faz do juízo final. São separadas as ovelhas das cabras; até aqui tudo normal. Mas a novidade do relato (e de nossa vida se nos deixamos interpelar) é o critério com o qual se faz esta seleção: os “pequeninos” são o próprio Jesus.
Não são dubladores ou coadjuvantes ou imitadores: são Jesus. O necessitado, o oprimido, quem vive na solidão, quem está enfermo… eles e elas são Jesus. Sacramento por excelência que, nesta crise sanitária, econômica e social, se estende por muitos lugares do mundo. Oportunidade para cuidar e deixar-se cuidar no mesmo Jesus.

Oração
Senhor Jesus, tu que és o irmão pequeno,
que és frágil, que está a ponto de romper-se,
faz com que nossas vidas
respondam a tantos gritos,
a tantos silêncios,
a tantas vidas despedaçadas.
Faz que entendamos que és
Eucaristia viva no irmão pequeno.

23 de fevereiro – Terça-feira

Leitura
10Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não volvem sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer,11assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão. (Is 55,10-11)

Reflexão
Neste caminho para a Páscoa não podemos esquecer que “entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que «geme e sofre as dores do parto» (Rm 8, 22)” (LS. 2). No confinamento domiciliar temos descoberto como a natureza estava curando e ocupando lugares anteriormente expostos pelo ser humano.
A terra não é apenas o lugar onde vivemos, mas a condição de possibilidade para as gerações futuras habitarem e desfrutarem. Portanto, não é propriedade, mas patrimônio que temos que cuidar e preservar.
Para os cristãos este planeta também é “Criação”, o projeto amoroso de Deus com valor infinito e não utilitário. Nós mesmos somos a Terra (LS 2), habitada por Deus e fertilizada por sua ação. Um nós-terra que devemos também fertilizar para outros seres humanos e toda a criação, exercendo os cuidados de um jardineiro.

Oração
Ó Deus dos pobres,
ajudai-nos a resgatar
os abandonados e esquecidos desta terra
que valem tanto aos vossos olhos.
Curai a nossa vida,
para que protejamos o mundo
e não o depredemos,
para que semeemos beleza
e não poluição nem destruição.
(LS. “Oração por nossa Terra”)

About Author

Paróquia Imaculado Coração de Maria

pcormar[email protected] Avenida Getúlio Vargas, 1193 - Rebouças - Curitiba/PR (41) 3224.9574 - Secretaria Paroquial