Papa Francisco: dois anos depois…

O Papa que fala às periferias do mundo e das periferias existenciais chega ao segundo ano de seu Pontificado. Por ocasião do segundo aniversário de seu Pontificado concedeu uma entrevista a uma televisão mexicana, publicada no último dia 13 de março. Nessa ocasião disse que tem a sensação de que seu pontificado será breve. Diante dessa declaração, surge a pergunta: A “reforma” iniciada por Francisco poderá seguir adiante, mesmo se seu pontificado for breve?

Se olharmos a história recente da Igreja, veremos que o Papa Francisco conseguiu trazer, como S. João XXIII, também considerado um Papa de transição, uma nova dinâmica na marcha da Igreja. Quando o Papa João XXIII anunciou o Concílio de renovação para a Igreja Católica em 1959 parecia um sonho impossível. Mas o resultado da marcha do Concílio Vaticano II trouxe profundas mudanças na Igreja. E passados 50 anos desde sua conclusão ainda há muito por fazer. A novidade do Pontificado do Papa Francisco se insere como uma etapa a mais nessa renovação da Igreja.

Num mundo de constante transformação o Papa Francisco acredita muito mais em processos, ainda que lentos, que em soluções rápidas: “Dar prioridade ao tempo é ocupar-se mais com iniciar processos do que possuir espaços. O tempo ordena os espaços, ilumina-os e transforma-os em elos de uma cadeia em constante crescimento, sem marcha atrás. Trata-se de privilegiar as ações que geram novos dinamismos na sociedade e comprometem outras pessoas e grupos que os desenvolverão até frutificarem em acontecimentos históricos importantes. Sem ansiedade, mas com convicções claras e tenazes” (EG 223). Com isso, podemos dizer que o movimento iniciado pelo Papa Francisco não tem como parar. Mas, do que se trata propriamente a reforma proposta por ele?

A resposta podemos encontrar ainda durante o Conclave que o elegeu Papa. O então cardeal Jorge Bergoglio deu, a pedido do cardeal Jaime Ortega, da arquidiocese de La Habana, o manuscrito de sua intervenção. Neste precioso rascunho dado ao cardeal Ortega podemos encontrar o gérmen do pontificado do Papa Francisco. Na última parte diz: “Pensando no próximo Papa: um homem que, desde a contemplação de Jesus Cristo e desde a adoração a Jesus Cristo ajude a Igreja a sair de si às periferias existenciais, que lhe ajude a ser a mãe fecunda que vive a ‘doce e confortadora alegria de evangelizar’”. Isso significa uma Igreja com os olhos fixos em Jesus, com os braços abertos para acolher quem vem ao seu encontro, mas que vai ao encontro dos sofrimentos e sonhos daqueles que vivem afastados. Ser mãe fecunda significa ser uma “ilha de misericórdia” no mar da indiferença em que vivem milhares de pessoas.

Sua primeira Exortação Apostólica leva por título justamente “A Alegria do Evangelho”. Este documento é antes de tudo um programa do seu pontificado: “Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos” (EG 1). O convite é para todos os cristãos, ou seja, ninguém deve sentir-se excluído a essa nova etapa de evangelização, marcada pela alegria. Em seguida diz que esse documento pretende ser uma bússola pela qual a Igreja deve orientar-se nos próximos anos.

Sem dúvida, o Papa Francisco representa uma síntese de sonhos de milhares de pessoas. Com um estilo simples, direto e profundo é capaz de expressar muito mais do que diz. Por serem carregados de profundidade, seus gestos e palavras causam tanta repercussão no mundo inteiro. Em termos concretos a reforma implica a conversão pessoal e eclesial.

A reforma da Igreja implica a conversão de cada um dos cristãos. No início da Exortação Apostólica convida todos a deixar-se encontrar por Jesus Cristo (EG 3) e mais adiante o convite é de evitar as tentações que impedem essa conversão (EG 79-109).

Um segundo passo é a reforma estrutural da Igreja, que não é apenas organizativa (Reforma da Cúria, do Banco Vaticano, etc.). Não são mudanças cosméticas e tampouco adaptação mundana.  Significa renovar as estruturas eclesiais que impedem o dinamismo evangelizador e procurar que todas as estruturas sejam mais missionárias, ou seja, uma verdadeira conversão pastoral (EG 26-27). Podemos destacar cinco características dessa conversão:

– Igreja marcada por um estilo de vivenciar a fé com simplicidade e normalidade. Esse é o estilo do Papa Francisco e deseja que seja o estilo da Igreja. Em outras palavras, significa voltar ao Evangelho.

– Igreja da misericórdia. O Evangelho que o Papa constantemente aborda não é de normas moralizantes, mas do amor misericordioso de Deus. E, por isso, anunciou recentemente um Jubileu extraordinário sobre a misericórdia de Deus, que iniciará no próximo dia 8 de dezembro de 2015.

– Igreja em saída, não autorreferencial e de portas abertas: convoca todos os fiéis a sair, a estar presentes nas periferias existenciais (EG 15-22); uma Igreja que tenha uma espiritualidade profunda e autêntica, em que o administrativo não predomine sobre o pastoral (EG 63); uma Igreja de portas abertas, que acolhe todos de braços abertos (EG 46-49): “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos” (EG 49).

– Igreja de todos e para todos, com atenção especial para a família e os esquecidos: pobres, idosos e enfermos (EG 48).

– Igreja plural, em que a unidade não se dá por uniformidade ou por simples obediência, mas pela harmonia poliédrica (EG 226-237).

Crer que a renovação é possível é, antes de tudo, um ato de fé no Espírito que sempre suscitou ao longo da história da Igreja homens e mulheres capazes voltar ao essencial da fé cristã. A renovação compete também a nós, desde nossas comunidades, desde nossa vivência. Significa também nos colocarmos “em saída” missionária e anunciar o Evangelho da Alegria a um mundo desencantado e sedento de sentido.

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Padre Eguione Nogueira

Missionário claretiano, nasceu em Ceres-GO aos 15 de fevereiro de 1987. Ingressou no Seminário Menor da Congregação dos Missionários Claretianos em Pouso Alegre-MG no ano 2002, cursando o Ensino Médio. Entre os anos 2005 e 2007 cursou Filosofia nas Faculdades Claretianas de Batatais-SP. Fez o noviciado na cidade de Cochabamba-Bolívia, onde emitiu os Primeiros Votos Religiosos no ano 2009. Entre os anos 2009 e 2013 cursou Teologia no Studium Theologicum de Curitiba-PR, sendo que em 2011 fez uma experiência apostólica em Moçambique. Foi ordenado presbítero no ano 2014 e destinado a trabalhar na cidade de Contagem-MG como vigário paroquial e auxiliar de formação. Entre 2015 e 2017, estudou Teologia Pastoral na cidade de Madri. Atualmente é Pároco na Paróquia Imaculado Coração de Maria em Curitiba/PR, e professor no Studium Theologicum.

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